sexta-feira, 1 de maio de 2015

Lenda a lagoa do bicho


                                                                 A lagoa do bicho

A lagoa do Bicho

À margem direita do rio Araranguá, cerca de dois quilômetros da sua foz, soergue-se do meio de vista planura arenosa imponente maciço de avermelhadas rochas sedimentares assaz antigas. Nossos antepassados chamaram-no – Conventos, tal a parecença encontrada, visto de longe e de certo ângulo, com uma dessas esbarrondadas e veneráveis construções monacais das passadas idades. A face do monolito gigante, que encara o nascente, é sulcada de gilvazes profundos, de rugas acentuadas, indicando, mui provavelmente, a galhardia com que afrontara em remotas eras as cóleras desabaladas do velho e sanhudo Oceano. Aquele que pelo lado do mar o contempla, altaneiro, senhoreando a planura escampa, toucando de buritis e botiás, verdadeiro penacho d’elmo truculento, tem a impressão de estar em face de um daqueles desabusados gigantes escaladores do Olimpo, de que nos fala a mitologia grega, ali petrificado e chumbado àquele solo adusto, inclemente, pela vontade dos deuses vingadores. Terminada a luta hercúlea, exaustiva, contra os escarcéus do mar antigo. Aquela imponente carcaça milenária atiram-lhe em cima avalanches de areia, com o propósito incontido de afogá-lo, de sepultá-lo para sempre. Puro engano! Crescem e se alteiam os comoros e a saunas, quais vagas desmedidas, em torno a rude peneda, mas não conseguem nunca dela aproximar-se. Largo fosso se cava em derredor dela, como uma zona neutra de respeito, de temor, a isolá-la. Soturna e mesquinha lagoa - suor daquela fronte vincada e adusta de lidador indomável - abre-se a leste e mescla suas águas esverdinhadas com as de uma outra que lhe demora ao ocidente. Esta é a chamada "lagoa do Bicho", onde se aninha, segundo a crença popular, um animal misterioso, estranho, fantástico, aterrador, que espera até hoje quem quebre o seu encantamento.